Quando a Instituição Silencia a Essência do Evangelho

 


“Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum... repartindo o que tinham conforme a necessidade de cada um... e o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.44 -47).

    Ao olharmos para a realidade da igreja hoje, percebemos que, ao longo do tempo, o corpo de Cristo acabou perdendo muito da essência que caracterizou a comunidade dos primeiros discípulos. Aquilo que nasceu como família, comunhão e partilha foi, pouco a pouco, se tornando uma instituição — e, em muitos casos, apenas isso. É inegável que a institucionalização trouxe benefícios, já que toda obra necessita de organização. A igreja não é somente um organismo vivo, mas também uma organização, e por isso a ordem em seus trabalhos é indispensável. Contudo, quando a estrutura passa a ter mais valor do que as pessoas, a mensagem do Evangelho se enfraquece, causando sérios prejuízos à fé e ao verdadeiro propósito que ele carrega.  

Muitas igrejas atuais investem em templos grandiosos, catedrais imponentes e centros de eventos luxuosos, mas deixam de lado espaços de acolhimento, estruturas voltadas ao serviço e ministérios dedicados a amparar os mais necessitados. O discurso gira em torno de campanhas financeiras, votos de fé, desafios e dízimos; grandes quantias são destinadas ao marketing, a cantores e pregadores renomados. No entanto, são poucos os projetos que verdadeiramente se concentram nas pessoas e no avanço do Reino de Deus.

O resultado é um povo cansado, desanimado e, muitas vezes, ferido. Muitos se sentem explorados e, por isso, deixam de contribuir, esfriam na fé ou simplesmente abandonam a igreja local. Isso ocorre porque foram ensinados a sustentar uma estrutura, e não a viver a generosidade bíblica — aquela que nasce do amor, da liberdade, da voluntariedade e da fé. Em vez de serem ensinados a contribuir com amor, voluntariedade e generosidade, são pressionados por regras, cobranças e medo. Possuem uma fé esmagada por um sistema que deveria fortalecê-la.

Por isso, deixo registrada minha tristeza com esse sistema que ainda aflige tantas congregações. É hora de abrirmos os olhos para o que está sufocando nossa espiritualidade. É tempo de voltarmos os olhos para nossas igrejas locais, que sofrem caladas, e refletirmos sobre como temos administrado aquilo que pertence ao Reino de Deus. 

Que o Senhor guarde nosso coração e nossa mente. Que, em meio a essa onda de esfriamento e confusão, permaneçamos firmes olhando para Cristo, o Autor e Consumador da nossa fé. E que Ele nos ajude a ser igreja — não um sistema, não um monumento, não uma empresa, mas o povo simples, amoroso e generoso que o Evangelho nos chama para ser.


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