Se o pecado afetou todo o ser humano — corpo, alma e espírito — por que então o espírito volta a Deus? (Ec 12:7)





 INTRODUÇÃO

  Para compreendermos o significado do capítulo 12, versículo 7 de Eclesiastes, é essencial analisarmos essa passagem dentro de seu contexto bem como à luz da revelação completa do Novo Testamento. Se  isolarmos esta passagem podemos dar brechas para interpretações equivocadas e até para o surgimento de heresias. Alguns exemplos dessas distorções incluem a ideia de que o espírito humano seria apenas um simples fôlego de vida, ou que o pecado não teria afetado o espírito humano, de modo que este retornaria a Deus de forma íntegra, independentemente de ter sido redimido pela obra de Jesus Cristo. 

Nosso objetivo, portanto, é abordar com profundidade essa questão: se o pecado corrompeu o homem em sua totalidade corpo, alma e espírito, por que Eclesiastes 12:7 afirma que o espírito retorna a Deus? É fundamental compreender o que o autor de Eclesiastes quis expressar com o termo espírito: estaria ele se referindo ao fôlego vital que anima o corpo ou ao espírito humano, a parte do homem que tem comunhão com Deus?

Além disso, devemos considerar que Salomão, ao escrever este livro, faz uma reflexão sobre a vida humana, seus limites e sua transitoriedade. Ele utiliza a linguagem poética e filosófica típica do antigo Israel, mas suas palavras precisam ser interpretadas à luz da revelação plena de Cristo e dos apóstolos, que esclareceram a condição do homem decaído, o efeito do pecado e a esperança da ressurreição e da vida eterna.

Dessa forma, ao longo deste estudo, buscaremos: compreender a natureza do espírito humano, discernir a diferença entre o fôlego de vida e o espírito que se relaciona com Deus, e harmonizar a mensagem de Eclesiastes com os ensinamentos do Novo Testamento. Nosso propósito é fornecer uma interpretação que honre a santidade de Deus, a realidade do pecado, e a necessidade da redenção em Cristo, prevenindo distorções que possam confundir ou levar ao erro.


O CONTEXTO DE ECLESIASTES 12.7.

  Eclesiastes é um livro de reflexões humanas sobre o sentido da vida “debaixo do sol” (Ec 1:3). O autor, Salomão, fala da finitude da existência humana e da inevitabilidade da morte. No capítulo 12, ele exorta o leitor a lembrar-se do Criador “antes que venham os maus dias” (Ec 12:1), isto é, antes que chegue a velhice e, finalmente, a morte.

No versículo 5, Salomão afirma que o homem vai à “sua morada eterna”, mostrando que a morte é o destino de todos — justos e ímpios. Assim, no versículo 7, ele usa uma linguagem poética para descrever o que acontece no momento da morte: o corpo, formado do pó, volta à terra (Gn 3:19);  o fôlego de vida, que Deus concedeu a Adão, volta a Deus que o deu (Gn 2:7). Não o espírito humano.  Pois a palavra espírito em hebraico usado em eclesiastes 12.7 é ruach. Esta palavra é polissemântica, ou seja, possui múltiplos significados dependendo do contexto em que é empregada. Pode referir-se ao vento, ao fôlego, à força vital ou ao espírito humano, a parte do homem capaz de se relacionar com Deus. Essa palavra também aparece em Gênesis 2:7, quando Deus “soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, e o homem foi feito alma vivente”. Logo, o texto de Eclesiastes está retomando a linguagem da criação — não em termos de salvação ou condenação, mas em termos da origem e cessação da vida física. Assim, o versículo não está ensinando que o espírito humano (como parte consciente e imortal do ser) volta automaticamente à comunhão com Deus, mas que o fôlego de vida, pertencente ao Criador, retorna a Ele. A polissemia de ruach é uma chave para evitar interpretações equivocadas. Quando Eclesiastes afirma que “o espírito volta a Deus”, é necessário diferenciar o que está sendo referido. Existe, portanto, uma distinção clara:

1. O fôlego de vida, que é dado a todos os seres vivos e retorna a Deus ao término da vida, sem levar em consideração fé, escolhas ou redenção. Este é o aspecto da vida que anima o corpo e mantém a existência física.  (Jó 34.14-15, At 17.25; Sl 104.29-30).


2. O espírito humano, que é a parte imaterial do homem e inseparável da alma criados para ter comunhão com Deus e que possui um destino eterno de acordo com a decisão de crer ou não em Cristo. Este espírito foi afetado pelo pecado (1 Ts 5.23; 2 Co 1.7) e somente a obra redentora de Jesus possibilita sua reconciliação com Deus. Enquanto o fôlego de vida de todos os seres vivos retorna a Deus, o espírito humano tem seu destino determinado por sua resposta à revelação de Deus em Cristo.

Portanto, o “espírito” de Eclesiastes 12:7 não se refere à parte espiritual redimida ou não redimida do homem, mas ao fôlego vital (hebraico rúach) — o princípio da vida concedido por Deus a todos os seres humanos. Esse fôlego, que é dom divino, retorna ao seu Doador quando a vida se encerra. 

Por exemplo, o Salmo 104:29-30 diz: "Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o FÔLEGO, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra".

 É nesse mesmo sentido que deve ser compreendido Eclesiastes 12:7. O texto não trata do destino eterno da alma ou do espírito humano, mas do fôlego de vida que procede de Deus e que, ao cessar, faz com que o homem retorne ao pó. Assim, tanto o Salmo 104 quanto Eclesiastes 12:7 afirmam que o fôlego de vida pertence a Deus, mas somente a regeneração espiritual em Cristo restaura a comunhão do homem com o Criador e lhe concede vida eterna. Portanto, em Eclesiastes 12:7, o que “volta a Deus” não é o espírito regenerado ou não regenerado do homem, mas o fôlego de vida que procede d’Ele. O destino final do ser humano não está sendo tratado aqui. O destino da alma e do espírito é revelado de modo mais claro no Novo Testamento:

O justo, ao morrer, é recebido na presença de Deus (2 Co 5:8; Fl 1:23);

O ímpio, porém, aguarda em tormento o juízo final (Lucas 16:23). Ambos, contudo, ressuscitarão — uns para a vida eterna, outros para a condenação (Jo 5:28–29; Ap 20:12–15).


A DIFERENÇA DO FÔLEGO DE VIDA E DO ESPÍRITO HUMANO.

  Biblicamente espírito humano é muito mais do que um fôlego vital. Quando Deus soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, o homem passou a existir como uma alma vivente (Gn 2:7). Entretanto, esse sopro divino não se limita a um ato físico de dar vida biológica — ele revela a infusão do elemento espiritual que conecta o homem diretamente ao seu Criador. O espírito humano foi gerado pelo sopro de Deus. A expressão hebraica nishmat chayyim (נִשְׁמַת חַיִּים) significa literalmente “sopro de vidas”. Esse plural indica que naquele sopro estavam contidas todas as dimensões da vida humana — biológica, emocional e espiritual. Quando Deus soprou, o espírito humano foi criado. Esse espírito é a parte mais profunda do homem, aquela que o conecta diretamente com Deus.

Zacarias confirma isso ao declarar que “o Senhor forma o espírito do homem dentro dele” (Zc 12:1), mostrando que o espírito humano é uma criação especial de Deus, colocada dentro do ser humano e não apenas concedida como um simples hálito vital. Essa verdade distingue o homem de todos os outros seres vivos, pois nele há um espírito que pode se relacionar com Deus, compreender o divino e responder à Sua voz.

Isaías também faz distinção entre o fôlego de vida e o espírito, ao afirmar que o Senhor “dá fôlego ao povo que nela está e espírito aos que andam nela” (Is 42:5). O profeta mostra que o fôlego de vida é o que sustenta a existência física, mas o espírito é o que dá consciência, comunhão e identidade espiritual ao homem.

Portanto, o espírito humano não é apenas uma força vital, mas a parte mais profunda e essencial do ser, aquela que foi criada para refletir a imagem de Deus e manter comunhão com Ele. É no espírito que o homem discerne as coisas espirituais, é nele que o Espírito Santo opera a regeneração, e é por meio dele que o homem pode voltar a viver em harmonia com o Criador.

O HOMEM FOI ATINGIDO INTEGRALMENTE PELO PECADO

    O homem é composto de corpo, alma e espírito. O corpo Deus criou da terra, a alma e o espírito Deus criou quando soprou o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente, com um espírito. Por meio do espírito humano o homem se relaciona com Deus, quando o homem pecou está comunhão foi rompida. Ou seja, o pecado afetou o homem integralmente. 

A Bíblia ensina que o pecado afetou o homem em sua totalidade — corpo, alma e espírito. O ser humano, criado à imagem de Deus, foi corrompido integralmente. Por isso, há necessidade de uma regeneração completa, operada somente pelo Espírito Santo. Se o espírito humano não tivesse sido afetado pelo pecado, não haveria necessidade do novo nascimento espiritual. Mas Jesus declarou: “Importa-vos nascer de novo.” (Jo 3:7) O novo nascimento é justamente a obra do Espírito Santo que vivifica o espírito humano morto pelo pecado, restaurando a comunhão com Deus. 

O gnosticismo diz que o espírito humano é uma centelha divina imune ao pecado; a Bíblia ensina que o espírito foi criado por Deus e precisa ser regenerado porque também foi afetado pelo pecado. Somente a obra regeneradora de Cristo tem o poder de vivificar o espírito humano e restaurar o relacionamento do homem com Deus (Ef 2:1–5). Assim, Eclesiastes 12:7 não contradiz essa verdade; pelo contrário, descreve de forma poética o retorno do corpo ao pó e do fôlego de vida a Deus, sem tratar do destino eterno do ser humano, e sem negar a doutrina da depravação total do homem. 






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