Desconheço outro feriado tão aguardado em Abril como a Páscoa. Se perguntarmos a uma criança o que ela gostaria de receber neste dia, a resposta será clara: "um ovo de Páscoa"; afinal, sem um ovo de Páscoa, a celebração perde sua graça. No entanto, poucas pessoas sabem que o ovo, o coelho e os bombons de chocolate não têm relação alguma com a verdadeira Páscoa. Assim como o Natal, a Páscoa também perdeu sua essência espiritual e se tornou apenas uma data comemorativa, que movimenta o comércio e alegra principalmente a indústria do chocolate, a matéria-prima do tão desejado ovo de Páscoa. Infelizmente, o que deveria ser um ato religioso para alguns se tornou apenas um símbolo de bons negócios e boas vendas.
Então, o que é a páscoa? Como surgiu? O que ela representa para nós?
A celebração da Páscoa é uma das mais solenes e significativas festividades da fé judaica. Instituída pelo próprio Deus, ela ocorre no dia 14 do primeiro mês do calendário religioso de Israel, chamado Abibe (posteriormente conhecido como Nisã), e é seguida pela Festa dos Pães Asmos, que se estende por sete dias.
Anualmente, nessa data, o povo de Israel era convocado a recordar com reverência e gratidão a poderosa libertação do Egito, quando o Senhor, com mão forte e braço estendido, livrou Seu povo da escravidão. A palavra “Páscoa” deriva do termo hebraico pesach, que significa “passagem”, fazendo referência ao momento em que o Senhor passou sobre as casas marcadas com o sangue do cordeiro, poupando os primogênitos de Israel (Êxodo 12:12-13).
Mais do que uma simples comemoração histórica, a Páscoa tornou-se um memorial perpétuo da fidelidade divina. Ela reafirmava a identidade de Israel como povo escolhido e renovava, a cada geração, a consciência da aliança estabelecida com o Deus libertador. Assim, a Páscoa não apenas celebrava a libertação do passado, mas também fortalecia a fé para o presente e a esperança no agir contínuo do Senhor na história de Seu povo.
"Portanto, guardai isto por estatuto para vós e para vossos filhos, para sempre. E acontecerá que, quando entrardes na terra que o Senhor vos dará, como tem dito, guardareis este culto. E acontecerá que, quando vossos filhos vos disserem: Que culto é este vosso? Então, direis: Este é o sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios e livrou as nossas casas. Então, o povo inclinou-se e adorou" (Êx, 12:24-27).
A Páscoa aponta para o sacrifício de Jesus na cruz.
Desde a sua instituição em Êxodo 12, a Páscoa carregava em si um significado que transcendia o próprio evento histórico da libertação do Egito. O cordeiro sem defeito, o sangue nos umbrais das portas e a libertação da escravidão eram mais do que símbolos do passado; eram sombras proféticas de uma redenção maior que haveria de se cumprir plenamente em Cristo.
No Novo Testamento, essa verdade se revela de forma clara e gloriosa. João Batista, ao ver Jesus, declarou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Assim como o cordeiro pascal precisava ser sem mácula, Jesus viveu sem pecado. Assim como o sangue do cordeiro livrou os israelitas da morte física, o sangue de Cristo derramado na cruz nos livra da morte espiritual e da condenação eterna.
O apóstolo Paulo de Tarso afirma em 1 Coríntios 5:7: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós”. Com essa declaração, ele revela que a antiga celebração era uma figura, um anúncio antecipado do sacrifício perfeito que seria consumado no Calvário. Na cruz, Jesus não apenas libertou um povo de uma nação opressora, mas resgatou todos os que creem do domínio do pecado e do império das trevas.
Se no Egito houve livramento da escravidão física, na cruz houve libertação da escravidão do pecado. Se naquela noite o juízo passou sobre as casas marcadas pelo sangue, hoje o juízo de Deus não alcança aqueles que estão cobertos pelo sangue de Cristo. A Páscoa, portanto, encontra seu pleno cumprimento em Jesus. Ela aponta para o amor sacrificial de Deus, que entregou Seu Filho unigênito para que tivéssemos vida.
Assim, ao contemplarmos a Páscoa, não vemos apenas um memorial histórico, mas a revelação do plano eterno de redenção. O cordeiro do Êxodo anunciava o Cordeiro da cruz. A libertação do Egito apontava para a libertação do pecado. E o Deus que passou sobre as casas marcadas pelo sangue é o mesmo que hoje salva, redime e reconcilia consigo todo aquele que crê em Jesus Cristo.
Os verdadeiros símbolos da Páscoa e sua mensagem profética para a Igreja
Ao longo dos séculos, muitos elementos culturais passaram a ser associados à Páscoa. Contudo, à luz das Escrituras, símbolos como ovos, coelhos, chocolates, peixes, velas, sinos ou girassóis não fazem parte da instituição bíblica da Páscoa. A Páscoa estabelecida por Deus possui fundamentos claros e específicos revelados em Êxodo 12, e seus símbolos carregam profundo significado espiritual e profético, que apontam para Cristo e falam diretamente à Igreja.
Os verdadeiros símbolos da Páscoa bíblica são três:
1. O Cordeiro
O cordeiro é o centro da Páscoa do Senhor. Ele deveria ser sem defeito, macho de um ano, separado previamente e imolado no tempo determinado (Êx 12:1-11). Seu sangue, aplicado nos umbrais das portas, foi o sinal de livramento do juízo.
Profeticamente, o cordeiro apontava para Jesus Cristo. No Novo Testamento, João Batista declarou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). O apóstolo Paulo de Tarso confirma: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5:7).
Assim como o sangue do cordeiro livrou Israel da morte física, o sangue de Cristo derramado na cruz nos livra da condenação eterna. O cordeiro simboliza redenção, substituição e libertação. Ele revela que não há salvação sem sacrifício, nem libertação sem sangue.
2. Pães Asmos (sem fermento).
O segundo símbolo são os pães asmos, preparados sem fermento. O fermento, nas Escrituras, frequentemente simboliza o pecado e a corrupção. Ao remover o fermento de suas casas, Israel demonstrava separação da velha vida e dos costumes do Egito.
Para a Igreja, essa mensagem permanece viva. O apóstolo Paulo ensina que devemos lançar fora o “velho fermento”, vivendo como nova massa, purificada em Cristo (1Co 5:6-8). Os pães asmos apontam para santidade, pureza e uma vida transformada.
A libertação não era apenas geográfica — sair do Egito —, mas também espiritual: abandonar a influência do pecado. A Páscoa nos ensina que quem foi redimido pelo sangue deve viver em novidade de vida.
3. Ervas Amargas.
O terceiro elemento eram as ervas amargas (Êx 12:8). Elas lembravam o sofrimento da escravidão no Egito, os anos de dor, opressão e humilhação.
Esse símbolo ensinava o povo a nunca esquecer de onde Deus os tirou. Para a Igreja, as ervas amargas nos recordam a antiga condição de escravidão ao pecado. Elas apontam para a realidade de que a redenção só é valorizada quando compreendemos a profundidade da escravidão da qual fomos libertos.
A memória da amargura exalta ainda mais a grandeza da graça.
Esses três elementos — o cordeiro, os pães asmos e as ervas amargas — compõem a Páscoa instituída por Deus. Eles não eram meros rituais, mas sinais proféticos que encontraram pleno cumprimento em Cristo.
O cordeiro anuncia o sacrifício. Os pães asmos proclamam santificação. As ervas amargas preservam a memória da libertação.
Assim, a verdadeira Páscoa não é construída sobre símbolos culturais posteriores, mas sobre a revelação divina da redenção. Ela aponta para a cruz, para o sangue que salva e para uma vida transformada pelo poder do Deus que liberta.
QUAL A IMPORTÂNCIA DA PÁSCOA PARA A IGREJA
Assim como para Israel a Páscoa marcou a libertação da escravidão no Egito, para nós, cristãos, ela possui um significado ainda mais profundo: libertação do império das trevas, redenção pelo sangue e salvação eterna em Cristo Jesus (cf. Cl 1:13-14). A Páscoa bíblica encontra seu pleno cumprimento na obra redentora de Cristo.
Entretanto, a Igreja não celebra a Páscoa nos moldes da antiga aliança. Em seu lugar, observamos a Ceia do Senhor, instituída pelo próprio Jesus em Evangelho de Mateus 26:26-28, na noite em que celebrou a Páscoa com seus discípulos. Ao tomar o pão e o cálice, Cristo estabeleceu a Nova Aliança em Seu sangue, dando um novo significado àquela celebração.
A Ceia do Senhor é, portanto, o memorial do amor sacrificial de Deus revelado em Jesus Cristo. O pão simboliza Seu corpo entregue por nós, e o vinho representa Seu sangue derramado para remissão dos pecados (1Co 11:23-26). Cada vez que participamos da Ceia, anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha, proclamando que fomos resgatados e que recebemos a vida eterna por meio de Seu sacrifício (cf. Jo 3:16; Rm 5:8).
Para a Igreja, a Páscoa fala não apenas da morte, mas também da ressurreição de Cristo (Mt 26:17-30; 28:1-10). Ele é o verdadeiro Cordeiro pascal, já anunciado em Êxodo 12, e confirmado pelo apóstolo Paulo de Tarso quando declara: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5:7). Mas diferentemente dos cordeiros oferecidos anualmente, Jesus venceu a morte e ressuscitou ao terceiro dia, garantindo nossa justificação e esperança viva.
Por isso, a mensagem da Páscoa para a Igreja é também um chamado à santidade. As Escrituras nos exortam:
“Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como de fato sois sem fermento. Pois também Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade” (1Co 5:7-8).
Assim, a importância da Páscoa para a Igreja não está em símbolos externos, mas na realidade espiritual que ela anuncia: fomos libertos, fomos redimidos e fomos chamados para viver em novidade de vida. Celebramos não apenas um evento histórico, mas uma obra eterna consumada na cruz e confirmada na ressurreição. A nossa Páscoa é Cristo — morto, ressuscitado e vivo para sempre.
