O batismo nas águas ainda é para os nossos dias?

 

    Nos últimos tempos, alguns ensinos têm circulado afirmando que o batismo nas águas não é mais válido para os cristãos de hoje, sob o argumento de que ele teria sido apenas um rito destinado àqueles que nasceram antes da cruz e estavam debaixo da Lei de Moisés. Segundo essa linha de pensamento, os que nasceram após a cruz já nasceriam sem pecado, reconciliados e justificados, tornando o batismo nas águas um “ritual judaico” desnecessário e até ofensivo ao sacrifício de Cristo. No entanto, quando esse ensino é analisado à luz de toda a Escritura, percebe-se que ele não se sustenta biblicamente e nasce de graves erros de interpretação.

Primeiramente, é essencial afirmar que a Bíblia não ensina que alguém nasce sem pecado por ter nascido cronologicamente depois da cruz. A obra da cruz é suficiente, perfeita e eterna, mas sua eficácia é aplicada mediante a fé, não automaticamente pelo simples fato de nascer em uma determinada época da história. Paulo é claro ao dizer que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23) e que, em Adão, todos morrem (Rm 5:12). A cruz não elimina a natureza pecaminosa herdada; ela oferece redenção a todo aquele que crê.

Outro erro grave está na afirmação de que Romanos 6 ensina que todos já foram batizados automaticamente na morte de Cristo. Paulo, ao escrever Romanos 6:3-4, diz: “Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?”. O apóstolo não está falando de um batismo universal e automático, mas de uma realidade espiritual vivenciada por aqueles que, pela fé, foram unidos a Cristo. O texto não exclui o batismo nas águas; ao contrário, ele explica o significado espiritual que o batismo simboliza: morrer para o pecado e viver para Deus.

A tentativa de reduzir o batismo nas águas a um simples “ritual judaico” também ignora o fato de que Jesus instituiu o batismo após a cruz. Em Mateus 28:19-20, já ressuscitado, o Senhor ordena claramente: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Essa ordem não foi dada a judeus debaixo da Lei, mas à Igreja, que já estava vivendo sob a nova aliança.

Além disso, o livro de Atos — que descreve a Igreja já após a cruz e a ressurreição — mostra repetidamente o batismo nas águas sendo praticado entre gentios e judeus convertidos. Em Atos 2:38, Pedro diz: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado”. Em Atos 8, o eunuco etíope, que não vivia debaixo da Lei mosaica, é batizado. Em Atos 10, Cornélio e sua casa, gentios, são batizados após receberem o Espírito Santo. Em Atos 16, o carcereiro de Filipos é batizado com toda a sua família. Esses textos deixam claro que o batismo não estava restrito a judeus pré-cruz, mas fazia parte da vida normal da Igreja nascente.

O uso de 1 Coríntios 10:1-2 para negar o batismo cristão também revela uma confusão hermenêutica. Paulo usa a travessia do Mar Vermelho como tipologia, não como limitação. Ele não está dizendo que o batismo cristão acabou ali, mas que aquela experiência apontava para realidades espirituais futuras. Tipologia não anula cumprimento; pelo contrário, ela o confirma.

Quanto a Atos 19:4, Paulo realmente afirma que o batismo de João era um batismo de arrependimento, preparando o caminho para Cristo. Porém, o próprio texto mostra que aqueles discípulos precisaram ser batizados em nome do Senhor Jesus, evidenciando que o batismo cristão não era o mesmo batismo de João e continuava plenamente válido após a cruz.

Por fim, a afirmação de que quem se batiza hoje “assume que ainda é pecador e anula o sacrifício de Cristo” inverte completamente o ensino bíblico. O batismo nas águas não é uma negação da graça, mas uma confissão pública dela. Ele não salva, mas testemunha a salvação já recebida pela fé. O batismo não compete com a cruz; ele aponta para ela.

Portanto, biblicamente, o batismo nas águas continua válido, relevante e ordenado por Cristo. Ele não é um meio de salvação, nem um retorno à Lei, mas um ato de obediência, fé e identificação com a morte, sepultamento e ressurreição de Jesus. Negar o batismo com base nesses argumentos não exalta a graça; antes, enfraquece o ensino bíblico e cria uma falsa dicotomia entre fé e obediência.

A graça não elimina os mandamentos de Cristo. Ela nos capacita a vivê-los.


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