Quando perguntamos se Jesus Cristo fundou a Igreja Apostólica Romana, precisamos antes voltar às páginas do Novo Testamento e observar como a Igreja nasceu, como se expandiu e como se organizou ao longo da história. Somente assim poderemos separar o que é relato bíblico do que é desenvolvimento histórico posterior.
A Igreja de Cristo teve sua origem em Jerusalém. Após a ressurreição e ascensão do Senhor, foi no dia de Pentecostes que o Espírito Santo foi derramado, conforme registrado em Atos dos Apóstolos capítulo 2. Ali nasce a comunidade cristã: apóstolos, discípulos e milhares de convertidos perseverando na doutrina apostólica, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Essa Igreja não tinha o nome de “romana”. Era simplesmente chamada de “igreja”, a assembleia dos chamados por Deus.
Nos primeiros anos, os seguidores de Jesus também receberam outros títulos. Em Atos 24.5, foram chamados de “seita dos nazarenos”. Em Atos 9.2, o movimento cristão é identificado como “O Caminho”. Esses nomes mostram que a fé cristã era vista como um movimento dentro do contexto judaico, centrado na pessoa de Jesus de Nazaré. A identidade da Igreja estava ligada a Cristo, não a uma cidade específica.
Com a perseguição que se intensificou após o martírio de Estêvão (At 7), os cristãos foram dispersos. O que parecia derrota tornou-se expansão. A Igreja espalhou-se pela Judeia, Samaria e alcançou outras regiões do Império Romano. Comunidades cristãs surgiram em Antioquia, Éfeso, Corinto e também em Roma. A igreja em Roma já existia quando o apóstolo Paulo escreveu a Epístola aos Romanos, por volta do ano 57 d.C., o que indica que ela não foi fundada diretamente por Pedro segundo o relato bíblico, mas surgiu como fruto da expansão missionária.
É importante observar que no Novo Testamento não encontramos uma estrutura centralizada mundialmente sob uma única sede administrativa. As igrejas eram comunidades locais, lideradas por presbíteros e bispos (termos usados de forma intercambiável no primeiro século). A autoridade doutrinária estava fundamentada nos apóstolos e no ensino de Cristo.
Ao longo dos séculos seguintes, entretanto, a igreja de Roma passou a ganhar destaque. Por ser a capital do Império, Roma exercia influência política e cultural significativa. Gradualmente, o bispo de Roma passou a reivindicar uma posição de primazia entre os demais bispos. Esse processo não ocorreu de forma instantânea, mas desenvolveu-se progressivamente entre os séculos II e IV.
A legalização do cristianismo ocorreu no ano 313 d.C., com o Édito de Milão promulgado pelo imperador Constantino I. Esse ato não fundou a Igreja, mas concedeu liberdade ao cristianismo e abriu espaço para maior organização institucional. Com o tempo, a estrutura eclesiástica tornou-se mais complexa, culminando na consolidação do que hoje conhecemos como Igreja Católica Apostólica Romana.
Dessa forma, historicamente falando, não encontramos evidência de que Jesus tenha fundado uma instituição com o nome ou a estrutura da Igreja Apostólica Romana. O que o Novo Testamento apresenta é que Cristo prometeu edificar a Sua Igreja (Mateus 16.18), uma comunidade espiritual formada por todos os que creem n’Ele. Essa Igreja nasceu em Jerusalém, expandiu-se por meio da perseguição e da missão apostólica, e ao longo dos séculos desenvolveu diferentes formas organizacionais.
A Igreja de Roma começou como uma igreja local entre muitas outras. Somente posteriormente, por fatores históricos, políticos e eclesiásticos, tornou-se o centro de uma estrutura hierárquica mais ampla. Portanto, afirmar que Jesus fundou diretamente a Igreja Apostólica Romana, como instituição histórica definida, não encontra base explícita no Novo Testamento, mas está ligado a uma interpretação teológica desenvolvida ao longo da tradição.
Compreender essa distinção não é apenas uma questão histórica, mas também uma reflexão sobre a natureza da Igreja: ela é, antes de tudo, o corpo de Cristo, fundamentado na fé apostólica, cuja origem não está em Roma, mas em Jerusalém — no Cristo ressuscitado que prometeu estar com os seus até a consumação dos séculos.

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