O Apóstolo João, sem dúvidas é o evangelista que mais profundamente ressalta a doutrina da pré-existência de Cristo. Já em seu prólogo (Jo 1:1), ele apresenta de forma direta e majestosa a realidade eterna do Verbo, destacando que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Nenhum outro evangelista expõe com tanta clareza e densidade teológica a eternidade e divindade de Cristo, estabelecendo desde o início que sua missão terrena está enraizada em sua existência eterna junto ao Pai. No entanto, limitar a preexistência de Cristo apenas ao Evangelho de João é um equívoco. Uma leitura atenta dos demais evangelhos revela que essa verdade já estava presente, ainda que expressa de maneira mais implícita e narrativa.
Em Mateus, por exemplo, a preexistência de Jesus é revelada no anúncio do anjo a José. Ao declarar que o menino que nasceria seria chamado Filho de Deus e Emanuel — Deus conosco (Mt 1:20–23), o texto aponta para uma identidade que não se origina no nascimento. O título “Filho de Deus” não descreve apenas uma função adquirida no tempo, mas revela uma relação eterna com o Pai, anterior à encarnação.
Em Marcos, ainda que o evangelho seja mais breve e objetivo, a preexistência também está presente. No batismo de Jesus, o próprio Pai declara: “Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazo” (Marcos 1:11). Essa declaração divina não cria a filiação naquele momento, mas a revela publicamente. O Pai não diz “hoje te fiz Filho”, mas afirma quem Jesus já é, apontando para uma identidade anterior ao início do Seu ministério terreno.
Lucas, por sua vez, apresenta essa verdade por meio da linguagem profética. Na profecia de Zacarias, Jesus é descrito como a luz que vem do alto para iluminar os que jazem em trevas e na sombra da morte (Lc 1:78–79). A expressão “das alturas” indica origem celestial, reforçando que Cristo não surge apenas da história humana, mas desce do céu para intervir nela.
Já João assume uma abordagem diferente. Ele não apenas sugere a preexistência de Cristo, mas a declara explicitamente. Ao identificar Jesus como o Verbo eterno que estava com Deus e era Deus, João fornece a base teológica que sustenta aquilo que os outros evangelhos já apresentavam de forma narrativa e progressiva. João não inventa uma nova doutrina; ele aprofunda e esclarece uma verdade já presente na tradição apostólica.
Portanto, a preexistência de Jesus não é uma ideia exclusiva de João, mas uma doutrina que atravessa todos os evangelhos. A diferença está no método, não na mensagem. Enquanto Mateus, Marcos e Lucas revelam essa verdade por meio de títulos, profecias e manifestações divinas, João a expõe de maneira direta e doutrinária.
Jesus não começou a existir em Belém. Belém foi o lugar onde o Eterno entrou no tempo, onde o Filho eterno de Deus assumiu carne para habitar entre nós.

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