
“Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.” (Mt 10.28).
A pergunta sobre se o homem é uma alma ou tem uma alma acompanha séculos de debate teológico, exegético e filosófico. De um lado, há quem afirme que o ser humano é apenas uma alma vivente, no sentido de que “alma” (nefesh) significa o próprio indivíduo, um organismo vivo, sem qualquer componente imaterial sobrevivente à morte. Essa visão é defendida por grupos que negam a imortalidade da alma e ensinam que, ao morrer, o ser humano deixa de existir completamente, sendo reativado apenas na ressurreição. Em geral, essas posições surgem dentro do aniquilacionismo, muito comum entre Testemunhas de Jeová, grupos adventistas extremados e movimentos antitrinitários que rejeitam qualquer dualidade entre corpo e alma. Para eles, “alma” simplesmente é “vida física”, e Gênesis 2:7 seria prova de que o homem não tem nada imaterial — ele apenas é uma alma enquanto está vivo.
Por outro lado, a tradição cristã mais ampla, incluindo expressivamente a Igreja Reformada, o pentecostalismo, e a maior parte da teologia histórica, afirma que o ser humano tem uma alma, ou seja, uma dimensão imaterial que pensa, sente, decide, se relaciona com Deus e sobrevive ao processo da morte física. Essa posição se baseia em textos como Mateus 10:28, onde Jesus distingue entre matar o corpo e destruir a alma; em Eclesiastes 12:7, onde o espírito volta a Deus após a morte; em Apocalipse 6:9, onde as almas dos mártires clamam conscientemente no céu; e em toda a literatura poética, onde a alma aparece como sede de emoções, medos, angústias e adoração (“Por que te abates, ó minha alma?”, Sl 42:5). Embora alguns críticos argumentem que essa teologia sofreu influência grega — especialmente platônica —, é inegável que o uso bíblico, especialmente no Novo Testamento e nos salmos, aponta para um aspecto do ser humano que ultrapassa sua matéria física.
Mas como conciliar essas duas afirmações? A chave está no entendimento bíblico do termo “alma” e no avanço da revelação ao longo das Escrituras. No hebraico de Gênesis, “alma vivente” (nefesh hajah) significa literalmente “ser vivente”, uma criatura que respira, sente e existe. Quando Deus soprou em Adão “o fôlego das vidas” — plural no hebraico —, não apenas animou o corpo físico, mas concedeu ao homem toda a complexidade de sua vida interior, incluindo sua dimensão espiritual, racional, emocional e volitiva. Assim, no Antigo Testamento primitivo, dizer que o homem é uma alma significa simplesmente dizer que ele é um ser vivo, uma pessoa real, uma unidade corpo + vida.
Porém, conforme a revelação progride, o significado se aprofunda. A alma começa a ser apresentada também como a interioridade do homem — aquilo que se abate, se alegra, teme, decide e se relaciona com Deus. É o que vemos nos salmos, nos profetas e, de forma ainda mais clara, no Novo Testamento. Ali, “alma” e “espírito” aparecem como realidades capazes de existir separadamente do corpo, capazes de sobreviver à morte e necessitadas de redenção (1 Pe 1:9). Nesse sentido, a Bíblia passa a usar “alma” também como algo que o homem tem, não apenas como algo que ele é.
Portanto, a conciliação bíblica é simples e sólida: o homem é uma alma enquanto ser vivente, tal como Gênesis descreve sua criação — uma pessoa viva formada por corpo e vida recebida de Deus. Mas, ao mesmo tempo, o homem tem uma alma enquanto interioridade imaterial, capaz de se relacionar com Deus, capaz de sobreviver à morte e capaz de experimentar tanto perdição quanto salvação. Assim, o materialismo aniquilacionista não consegue lidar com toda a revelação bíblica, enquanto o dualismo exagerado também não corresponde à antropologia hebraica de Gênesis. A resposta equilibrada, coerente e fiel às Escrituras é que somos alma no sentido existencial e temos alma no sentido espiritual e imaterial, exatamente como a Bíblia revela ao longo de suas páginas.
